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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O que é uma Grande NOVELA?

 

O canal Globo está a reprisar tantas novelas de "antigamente" que fica desinteressante acompanhar qualquer uma. Contudo, existiram algumas que revi. Interessante que, a partir de uma certa altura, não tinha mais paciência para esperar pelo próximo capítulo e decidi continuar a acompanhar a novela nos sites online que as disponibilizam. 


Com isso faz uns dois meses que terminei de assistir a "Tieta", enquanto no canal esta novela ainda vai no episódio 117.


Outras novelas em exibição no canal são "Sinhá Moça" de 2006, "Avenida Brasil", Esplendor, Mulheres de Areia, Laços de Família e o seriado A Casa das Sete Mulheres. Tudo produção reprisada. No ar com produto atual estão as novelas Dona de Mim e o remake de Vale Tudo.  

Desta (surpreendente) lista estou assistindo a ZERO. 

Interessante como novelas que foram um mega sucesso numa certa altura, quando rerpisadas não me despertam interesse. "Carminha" e todas as maldades de "Avenida Brasil" foram interessantes de acompanhar na altura. Mas pensar em rever tudo aquilo não desperta qualquer interesse. Ver episódio atrás de episódio, com todas as suas "barrigas" e as histórias paralelas mais as que se arrastam pela trama... NÃO. 

O ritmo da vida mudou. Os hábitos de consumo alteraram-me. Esperar que uma pessoa fique a ver um capítulo inteiro incluindo as partes que não lhe interessam e fazer isto todos os dias, "dedicando" uma hora do seu tempo a isto, que incluiu intervalos publicitários, é de "doidos". Já quase ninguém consome um produto audio-visual desta maneira. 

Sempre tive visão do futuro... Quando, na década de 90, utilizava o meu vídeo-gravador para depois ver os programas que me interessavam, quando tivesse tempo e vontade - é simplesmente o que as redes sociais hoje impoem como norma. Algo que eu já fazia 30 anos atrás. 

Mas a verdade é que o produto "televisão" tem de se re-inventar. E nele, o grande trunfo que a "novela" um dia já foi precisa de se adaptar aos novos meios e formas de consumo. 

NOVELAS a que assisti por ter vislumbrado suas reprises no canal?
Roque Santeiro e Tieta. 

E valeu a pena. 

Existe algo nestas novelas que não as fazem desinteressantes. Nem pelas histórias paralelas. Tudo flui num bloco sólido que mantém o interesse e diverte. São novelas que recorrem muito ao humor. Ao exagero. Foram feitas com mestria e com interpretações talentosas que transbordam de informação sublimar. Chegam aos episódios que quase atinge o número 200 e uma pessoa quer mais. Podia ver mais. Não cansou. E vai sentir saudades. 

ISSO é uma boa novela. 

Para mim estas produzem esse efeito "hipnótico" e gostoso de assistir. Para outros, talvez de outra geração, essa capacidade pode estar numa destas novelas referidas acima. Quem sabe?

Até Mulheres de Areia, que é relativamente da mesma altura das outras não me desperta qualquer interesse em assistir. A história em si não me chama. Existia muito drama e pouca comédia talvez. Talvez esse seja um fator importante? É uma boa história mas como tantas outras assiste-se uma vez e basta. 

Roque Santeiro podia voltar a ser exibida agora que voltaria a ver do princípio ao fim sem me incomodar. 

Outra novela que o canal já reprisou e que na altura em que passou originalmente eu adorava ver foi "Barriga de Aluguer". Porém, quando reprisada não me despertou vontade de assistir. Tem muita barriga, muita história paralela, muita demagogia. Sim... demagogia. Aquele núcleo do hospital, o eterno debate entre o certo e o errado... Lembro dela com muito carinho - ainda detesto a Clara e não posso ver uma cena com ela que só me apetece dar-lhe um par de estalos na cara (ahah). Miúda egoísta até mais não, mimada, alucinada, invejosa, mau carácter e muito, muito ingrata. Decobri pelo pouco que vi que ela ainda era mais cruel, mais torturosa mais irritante do que me lembrava. Ana também tinha os seus defeitos e um deles era o egoísmo sim. Mas sentia afinidade e humanidade por ela. Achava que ela estava certa e ela é que era a mãe. Não só biológica como de todas as formas. Quando se ama um filho antes mesmo dele existir, é-se mãe. Clara não teve nunca essa sensação e creio que nem depois do parto teve. Ela só era uma miúda sonhadora sim, que ia atrás de sonho sem saber como, pisando nos sentimentos do pai, irmã, namorado, amigos e sem se importar em magoar quem lhe era próximo. E amor ao filho... acho que só não queria era "perder" a parada. E como em tudo na sua vida, usava o seu sofrimento e drama pessoal para atrair simpatia, para manter amigos à sua disposição 24 horas por dia, para ter todos à sua volta como satélites e ela o SOL. 

Adorei a história da Aída e do seu drama pessoal, primeiro com o marido que a traía, depois por se apaixonar pelo marido da filha. Mas se queria rever tudo isto de uma vez só? Não. Afinal, não. Mas é uma excelente novela. Com muita barriga mas excelente. 



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segunda-feira, 14 de abril de 2025

Revi ROQUE SANTEIRO: Impressões

 Esta novela é uma das melhores - se não a MELHOR produzida pela rede Globo. Difícil dizer que esta, ou "aquela" é a melhor, porque na década de 80 virada para 90 existiram muito boas novelas. 

O que Roque Santeiro tem de especial é uma sabedoria requintada de saber fazer uma história para televisão. Cada plano escolhido para contar uma emoção, a dinâmica das personagens, os atores, a mestria do texto - que adoro por dizer TUDO sem pronunciar uma única palavra. A sua sonoplastia é uma lição para quem quiser fazer uma obra de sucesso dentro deste meio que é a televisão. Se quiserem entender o papel importante da sonoplastia, têm em Roque Santeiro O "PROFESSOR". 

A novela tem mais de 200 capítulos. Que se vêm todos sem esforço. Aliás, chega-se ao final percebendo que, se o autor quisesse, a história podia ter dado mais uns 50, 100 capítulos, que o povo não ia se aborrecer. 

A obra tem base numa peça teatral escrita 20 anos antes por DIAS GOMES. "Berço do Herói" era o nome e o ano foi 1965. Com a censura que o Brasil enfrentava em 1975, não foi possível fazer dela uma novela. Isso só veio a acontecer no ano em que a novela foi gravada: 1985. Uma década a acrescentar a outra década de existência, só serviu para melhorar o texto. Tal e qual como um bom vinho, foi preciso ficar engavetada a ganhar corpo para ficar DELICIOSA. 


Sabe-se que Dias Gomes parou de escrever a novela lá para o capítulo 51, ficando no seu lugar Aguinaldo Silva. Segundo este, Dias estava apaixonado, a viver um intenso amor e seguiu essa pessoa para o estrangeiro. Ao regressar percebeu que a novela era um mega-sucesso de audiência e que o povo todo falava nela mas... diziam que era da autoria de Aguinaldo Silva. Este estava a receber todos os "louros" por um "filho de criação", 100% fruto da imaginação de Dias Gomes e não tão recente assim: aquelas personagens tinham sido criadas 20 anos antes. Entendo perfeitamente a sensação de apropriação que o autor poderá ter sentido, ao ouvir o povo elogiar Aguinaldo por os entreter tanto com a história daquelas personagens- história que ajudou a manter viva por mais de 100 capítulos, mas da qual não foi o "pai". Foi um "padastro" - apareceu quando foi preciso. Este caso é hoje bem conhecido porque os dois autores ficaram de mal um com o outro. Um por ter visto a sua criação atribuida a outro e o outro por ter ajudado e depois ter sido afastado. 


 Ao rever a novela percebi que existe um momento claro no guião em que a história é precipitada para o seu final. E alguns aspectos saem prejudicados. 


 Quando a sogra de "sinhozinho" aparece na sacristia da igreja para falar que era ela a mulher por quem o padre Hipólito se apaixonou na juventude - toda essa cena, no fundo, foi escusada. Já estava subentendido desde o momento em que a avó de "Tânia" demonstrou suspeitar da atracção da neta pelo outro padre na história: Albano. Estava ainda mais subtilmente entendido nas poucas vezes em que Hipólito se encontrava com D. e logo se apressava a não trocar longas palavras e a "fugir". 


Lamentei que, na pressa de terminar a trama, esta parte das pessoas maduras que já passaram por aquilo e saberem tão bem o que significa não tenha sido mais desenvolvida em momentos oportunos, para ajudar os jovens que estavam a passar por aquilo naquele instante. A sabedoria e a importância de revelar aos mais novos que também existem histórias de amor nos que aparentemente são frios e nunca amaram é muito importante para criar personagens que não são lineares ou planas. 


A pior gaffe nesta praticamente perfeita novela, é que a motivação de Roque - o verdadeiro e vivo Roque Santeiro, em permanecer na cidade e terminar com o mito, mantida com muita teimosia durante a trama inteira, desapareceu subitamente e este tenha decido deixar a cidade. Sem revelar quem é, sem ver os responsáveis por tantos crimes serem penalizados. Não dá para acreditar. Não bate certo com a personagem que conhecemos. 


Os "bandidos" saem todos no lucro. Mesmo o que morre - coitado. O Zé "das Medalhas" é bem castigado por ter sido um machista de um marido, um marido à "moda antiga", fruto de uma educação que se quer acreditar ter ficado lá atrás, perdida no tempo. Mas não era culpa dele. E tem momentos em que Armando Bógus - o ator que lhe deu vida, consegue perfeitamente transmitir essa autenticidade da personagem - principalmente nas cenas conjugais. Ele AMA a mulher só que ele é um homem que só sabe amar do jeito dele: machista. Com conceitos totalmente machistas, em que a mulher fica relegada apenas ao papel de educadora dos filhos e amante dona de casa. A mulher não pode sequer olhar, sorrir ou cumprimentar outro homem. Se percebido, mais tarde, em casa, provavelmente vai sofrer e levar uma tareia, para "aprender" a se comportar como uma boa esposa deve se comportar. Uma parte importante da trama deste casal é revelada quase no fim, quando Lulu, a esposa diz a Zé que ele deixou de a querer quando percebeu que "ela gostava". E ele simplesmente confirma, afirmando que "mulheres de bem" não sentem "essas coisas". 


E por um motivo tão besta destes... o casamento deles não deu certo e foi um tormento. Tanto para o subjugado e sofrido, quanto para o carrasco. 

Muito boa esta trama!

Tenho mais para falar sobre a mesma mas por agora fico por aqui, concluindo que devia ser OBRIGATORIO que os atores que ainda estão vivos e a dar cartas por aí - E ELES AINDA SÃO MUITOS - deviam regressar a estes papéis num especial televisivo, só para nos brindarem com o "40 anos depois"... 


Queria ver um Sinhozinho Malta e uma Porcina da Silva juntos 40 anos depois. Velhiiiiinhos... Lima Duarte e Regina Duarte aí, vivinhos, na ativa... que tal armarem um short-story para os dois?


Tem ainda a Cássia Kiss (recuso-me a tirar-lhe o segundo S, foi assim que aprendi o seu nome e é assim que surge na abertura desta e muitas outras novelas) que podia mostrar uma grande transformação da sua "Lulu". Tem ainda o seu "Flô", o grande Ary Fontora e sua filha Mocinha (Lucinha Lins), que terminou a novela como começou: a optar ser a eterna apaixonada do mito, vivendo num amor platónico perfeito entre uma pessoa viva e outra morta. Amores destes nunca trazem conflitos ou discussões. A realidade é bem diferente e foi isso que Mocinha comprovou e não soube lidar. 


Portanto, entre muitos outros atores, temos ainda personagens centrais e vitais na trama que podiam voltar a ser encarnadas pelos seus atores originais. Não fazerem isto com obras icónicas da teledramaturgia noveleira é.. um "crime". E uma oportunidade perdida para vermos seus atores a voltar com deleite, respeito, amor pela personagem e pelo público a representá-las novamente. 


É que seria muito especial, para todos os envolvidos. 

AO INVÉS DE INVESTIREM no remake de Vale Tudo para celebrar o seu aniversário, deviam homenagear suas obras em retrospetiva e trazer os atores que mais marcaram essa história, para reprisarem seus papéis. Seria um estouro de audiência! 

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