
Quando vi esta mini-série de Manchete, era uma menina, a entrar na adolescência. Preciso realçar que o que me cativou na sua apresentação foi o ênfase dado ao facto de se basear em factos reais. Ou seja: esta mulher de alcunha "Beija", nome sugestivo para a nossa década, existiu na realidade e a história que estava a acompanhar, era essa verdade contada no ecrán.
A figura fascinou-me. Procurei informações sobre a verdadeira Beija. Quis aprofundar o que vi na ficção e separar alguma fantasia da realidade.
Não é fácil conseguir obter informações sobre uma figura estrangeira numa altura em que não existe internet. (Sim, por incrível que pareça, a civilização já existiu um dia sem a presença da internet, e vivi nesse tempo). Basicamente, a minha única fonte foi o que a imprensa, também ela fascinada pela história baseada em factos reais, publicou. Pouco destaque deu, mas o dado foi todo absorvido por mim. O que a imprensa escrevia a respeito dos factos por detrás da história e o que os autores e produtores da série comentavam. Queria ver uma imagem real de Beija, porque tinha cá para mim que a verdadeira Beija não seria fisicamente parecida a Maitê Proença. Tinha uma imagem na minha mente. Uma muito ligada aos padrões de beleza de antigamente: a mulher de formas redondas mas não gordas, de cintura menos fina e com ancas predominantes, de perna curta e barriga redonda, rosto arredondado com bochechas, lábios bem definidos e pequenos, como os quadros de antigamente pintam as mulheres. E imaginei-a dotada também daquele timbre de voz doce, fina, sussurrante, que encanta com qualquer som que emita.
Conheci poucas pessoas que instantâneamente conquistavam a simpatia apenas pelo tom de voz angelical que projectavam. Por acaso, de anjo tinham muito pouco mas o importante é que, não o sendo, tinham uma voz que imediatamente fazia estranhos tirar essa conclusão. D. Beija também deve ter possuído semelhante ferramenta de encantar. Ou não seria apelidada de "Feiticeira", sendo que costumava (en)cantar na chácara do Jatobá.
Eis que descobri que a sua imagem não ficou preservada. Existem retratos, todos eles feitos por artistas ou admiradores póstumos. E Beija surge retratada conforme a descrição da sua beleza, mas não por alguém que a tivesse visto e conhecido. Vi no entanto, uma figura pintada em azulejo, de uma mulher a terminar de se banhar perto de um rio e pensei: esta deve ser a imagem mais aproximada da verdadeira Beija. A gravura carregava uma certa áurea e correspondia á imagem mental da minha mente.
Não sei porquê esta curiosidade, este fascínio, mas devo esclarecer que não se tratou de algo fanático, embora fosse algo compulsivo. E totalmente íntimo. Nunca ninguém soube desta pesquisa, até agora! Descobri que teve duas filhas (e muitos netos), uma das quais se casou e veio morar para Portugal. O que me levou a pensar onde estariam os seus descendentes hoje. Por incrível que pareça, quase me convenci que tinha, por acaso, descoberto um! Uma rapariga, adolescente, que por acaso surgiu do nada lá na escola do bairro. Correspondia fisicamente ao desenho dos azulejos e conseguia chamar a atenção de todos os meninos, com um certo prazer que não disfarçava. Acho que era mais essa "áurea" energética que algumas pessoas carregam que me fez estabelecer uma relação. Depois fiquei a saber de um facto curioso sobre sua família e pensei: Ora esta! Até que pode ser ela! Enfim, imaginação fértil de uma menina fascinada por uma história.
Num determinado ponto da história contada pela TV Manchete, o comportamento de Beija decepciona-me. Quando ela manda matar o amante, e sente remorsos depois. Devo confessar que aqueles remorsos não me pareceram ligar bem com a relação dos dois. Quando as coisas chegam aquele ponto, seca tudo e não há sentido de culpa. Aquilo não me caiu bem e quando li mais tarde na imprensa, o autor e o director comentarem que na realidade, a verdadeira Beija nunca mostrou sinais de arrependimento, mas fizeram-na arrepender-se na série para a tornar mais humana, fez sentido para mim.
A verdade é que nunca se saberá quem foi a figura na vida real. Já pouco se sabe daqueles que vivem no nosso tempo, ao nosso lado, na nossa casa, quanto mais tentar adivinhar quem foi uma figura que viveu no século XIX. Mas se o que a fantasia nos trouxe sobre a essência de Beija tiver o seu fundamento, é um misto de pessoa fascinante, cruél como muito era de costume no século XIX onde a nobreza possuia escravos e dona de uma energia sedutora que soube utilizar muito bem e esconder quando começou a esmorecer. Criou-se o Mito.
No meu entender, sempre imaginei Beija uma mulher que, como tantas outras, gosta de sexo e de atraír homens. Não deve ter sido em nenhuma altura aquela mulher recatada, que fica a aguardar o casamento, para se entregar e ter filhos. Embora seja muito credível essa primeira parte contada pela mini-série. Ela mesma filha de uma mulher que não era casada e nem o nome do pai de Beija tinha para a registar. Talvez não tenha sido muito bem aceite na sociedade, afinal as origens eram por demais inaceitáveis para sequer ter sido noiva de alguém com estatuto. Deve ter sido ambiciosa e sonhado em subir de vida ao se relacionar com alguém de posses ou poder. Ainda é o que mais se vê por aí nos dias de hoje! Se calhar teve logo um filho antes mesmo de se tornar conhecida. Um acaso a deve ter elevado ao estatuto de pessoa benemérita para a cidade. De pecador a santo, qualquer um é rapidamente elevado ainda hoje. Tão facilmente nos acusam, como nos erguem estátuas. No fundo, a sociedade muda pouco nos seus alicerces! As filhas de Beija, as registadas pelo menos, casaram ambas com pessoas influentes.
O que foi Dona Beija, a mini-série, para si? Escreva um comentário!
English version:
I was in my early teens when I saw this mini-series. What captured my curiosity was the real life figure inspiration. I’ve searched information about the real Beija. There weren’t many, in the age of no internet. But even so, the press published something that clarified me. What was true, what was fiction?
Is difficult to say when we are talking about XIX century figures that became a local legend and lived on in stories telling. But taking this great production as the truth, she was just a female, gifted with beauty and natural seduction qualities.
I imagined her quite different from Maitê Proença´s looks. Although the actress gave in a great presence, I figured that the real Beija must have had a look more according to that time and era. A female in round shapes, but not fat, kind of petite, delicate appearance, with well shape lips and small mouth, nice bone checks, harmonious face and gifted with the ultimate weapon that is a angelical voice in a women.
In my research I found out there is no picture of the real Beija. What exists- statues, pictures and drawings came from artist’s imagination, years after. They created the myth.
This image painted in tiles, however, capture my attention and I figure that, the real life Beija must have looked very similar to that.
In real life, there is no prove that Beija felt remorse after having António killed. That actually pleases me because, the way the story had been told to that point, I don’t believe she would. Although is very convincing and well done, immediately after the order is given and the result expected, she would not regret anything, for sure. After all, he tried to do the same. That’s bad love for you!
What did you felt when watching D. Beija? Please, comment!
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